
A Agência Mandalla de Desenvolvimento Holístico, Sistêmico e Ambiental é um exemplo de que o franchising pode dar certo até mesmo na agricultura familiar.
Criada há seis anos como uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), a Agência optou pelo modelo de franquia social para replicar as tecnologias que desenvolve com objetivo de tornar a agricultura familiar rentável e sustentável. O projeto – que venceu o Prêmio Inovação em Sustentabilidade do Instituto Ethos e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) em maio deste ano – ajuda a evitar o êxodo rural e a obter melhor aproveitamento dos recursos naturais com redução do desperdício. Os R$ 60 mil recebidos na premiação estão sendo usados na melhoria da estrutura de gestão da franquia social.
Círculo de fartura por Andréa da Luz Microecossistema garante equilíbrio biodinâmico da natureza, e sustento e renda para a família do produtor.
Com um centro de pesquisas em João Pessoa (PB), a Agência ganhou projeção com o desenvolvimento do sistema mandalla de produção. Nesse modelo, é possível plantar mais de 60 culturas vegetais, cerca de 450 espécies de frutíferas e criar até 10 pequenos animais em espaços reduzidos, rurais ou urbanos. Além de suprir as necessidades alimentares da família, garante excedentes que podem gerar uma renda de até R$ 2 mil mensais ao agricultor. Atualmente, 1,8 mil famílias já implantaram a mandalla ou outra tecnologia de produção com foco nas características regionais desenvolvida pela Agência. O processo de expansão começou em junho de 2007. Hoje, são 26 franqueados nos estados da Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte; enquanto outros 24 difusores (multiplicadores dos sistemas de produção) trabalham nas regiões do Triângulo Mineiro e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
“Começamos a replicação aqui no Nordeste pela facilidade de acompanhamento, mas a meta é formar quatro turmas de 24 franqueados em todo o Brasil até o próximo ano”, afirma o diretor de Gestão de Estratégias, Tárcio Handel.
“Começamos a replicação aqui no Nordeste pela facilidade de acompanhamento, mas a meta é formar quatro turmas de 24 franqueados em todo o Brasil até o próximo ano”, afirma o diretor de Gestão de Estratégias, Tárcio Handel. Para chegar lá, a Agência desenvolveu uma ferramenta de educação a distância que otimiza o tempo e reduz o custo de formação dos franqueados. “Antes, o processo de formação era feito em seis módulos presenciais e agora é possível trabalhar com quatro presenciais e dois virtuais, aumentando a capacidade de expansão para regiões mais distantes sem perder a qualidade dos repasses de tecnologia”, diz Handel. Os franqueados desenvolvem ações nos seus estados por meio de parcerias públicas e privadas. “Em Pernambuco, temos parceria com a Secretaria Estadual das Mulheres para difusão das mandallas dentro de assentamentos da zona canavieira (Zona da Mata pernambucana) envolvendo 130 mulheres”, conta Handel. No Ceará, os franqueados se articulam com 94 associações comunitárias em uma ação que pode se transformar em política pública da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do estado. Em Montes Claros (MG), o projeto deu tão certo que 34 produtores montaram um agroindústria no sistema de cooperativa para beneficiar parte do que é colhido nas propriedades. Para sustentar esse crescimento, a Mandalla conta com patrocínios como o do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que destinou US$ 150 mil para o projeto de expansão de franquias.
Outros dois patrocinadores (Pepsico e Bayer CropScience) respondem por R$ 300 mil, usados para a manutenção do centro de pesquisa e treinamento. Assim, já é possível sonhar um pouco mais alto. A organização está levando a tecnologia do sistema para o Vale do Zambeze, em Moçambique, onde está sendo montado um centro de difusão; e para a Universidade Earth da Costa Rica, que já implantou uma mandalla para formação de replicadores dentro de uma estratégia de difusão para a América Central. No Estado do Pará, outra franquia vai preparar 1,2 mil jovens com formação empreendedora e capacitá-los na utilização do sistema produtivo. Segundo o diretor, cerca de mil pessoas e A estrutura de produção é formada por círculos concêntricos, com um reservatório de água em forma de funil no centro, de onde parte a irrigação das plantas. Os animais ajudam a adubar a terra, fechando um ciclo auto-sustentável. instituições aguardam aprovação para se tornarem difusores ou franqueados da Agência Mandalla. “A idéia é que os candidatos (pessoas ou organizações) tenham objetivos alinhados com os da Agência, já tenham experiência em desenvolvimento de ações com agricultores familiares e um conhecimento no mínimo superficial de técnicas produtivas.” A dificuldade em atender a demanda por novas mandallas e a quantidade crescente de empresas que desenvolvem estratégias de investimento social privado fizeram com que a Agência vislumbrasse no modelo de franquia uma boa solução. A idéia é unir as organizações brasileiras que trabalham com foco na agricultura familiar (são mais de 50 mil unidades catalogadas pela Mandalla) e as empresas de investimento, aumentando a capilaridade. “Passamos o know-how para as organizações franqueadas (o contrato é similar ao das franquias comerciais, inclusive com base na mesma legislação) para que elas desenvolvam as atividades junto aos agricultores, com capital financiado pelas empresas investidoras”, explica Handel. O custo para o franqueado é de R$ 3,6 mil. A Agência tenta captar investidores que possam viabilizar a replicação de novas mandallas, evitando que os franqueados precisem de capital inicial para participar da franquia. Depois de um processo de formação que dura seis meses, o franqueado está apto a iniciar o trabalho. O modelo foi formatado para que um franqueado trabalhe com pelo menos 24 famílias, gerando uma renda de até R$ 2,1 mil oriunda dos honorários cobrados para acompanhar os agricultores. Cada família deve pagar R$ 2,8 mil para implantar o sistema de mandallas, o que pode ser viabilizado pelo Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) do governo federal. Nesse valor já está incluído o custo da consultoria prestada pelo franqueado durante um ano. Ao final dos 12 meses de implantação, o valor destinado à consultoria começa a ser custeado pela venda do que é produzido na propriedade, que se torna sustentável. O franqueado também passa a ter uma participação nessa comercialização e atua permanentemente na propriedade, como se fosse um gerente de planejamento e controle de produção. “Fazemos um levantamento da capacidade produtiva e do potencial de consumo da região onde será implantada a mandalla e desenvolvemos o planejamento produtivo de acordo com essa lógica de consumo”, diz Handel. A Mandalla também faz consultoria de campo, verifica se as ações desenvolvidas pelos franqueados seguem os padrões da Agência e realiza o repasse de tecnologias pela internet. Além disso, gerencia a marca própria que funciona como um selo de garantia de qualidade dos produtos cultivados de forma orgânica.
De acordo com Handel, por ser um processo de produção sustentável, é possível produzir um pé de alface com o mesmo custo final de uma alface agroquímica. “Obedecemos à lógica da missão da Agência de transformar a agricultura familiar em um negócio sustentável e fazer com que as pessoas da cidade tenham acesso a produtos de qualidade a preços acessíveis, quebrando a lógica usual de que produtos orgânicos são para consumidores das classes A e B”, declara. A garantia de sucesso do sistema está na assistência técnica. “Se não houver acompanhamento permanente dos agricultores, somente cerca de 30% das mandallas continuam funcionando após um ano”, afirma. Isso porque o processo envolve uma grande mudança de paradigma: trata-se de abandonar a prática comum de monoculturas e passar a gerenciar um sistema auto-sustentável. “Sem orientação, as pessoas tendem a usar a mandalla para produzir apenas milho e feijão e aí o sistema perde sua capacidade de retorno, porque a lógica é buscar um equilíbrio energético interno que achatará a matriz do custo de produção permitindo colocar um produto orgânico no mercado com o mesmo preço de um agroquímico”, explica Handel. Esse é o diferencial. “Quando você utiliza a mandalla para a monocultura, a produtividade é muito baixa porque a área é pequena, e essa não é a lógica do sistema. Já os que seguem os procedimentos conseguem uma renda de até R$ 2 mil mensais, um grande fator de motivação para que mais famílias queiram participar.” Além da mandalla, há outras tecnologias desenvolvidas no centro de pesquisa, como o sistema piramidal usado em áreas urbanas em espaços de 2,25 metros quadrados para cultivo de plantas de forma suspensa e criação de até 200 peixes. “Temos outros projetos de piscicultura concentrada em andamento, cuja previsão é de 1 hectare de área para produção de até 300 toneladas por semestre, através de pequenas mandallas”, revela o diretor de Gestão de Estratégias, Tárcio Handel. Segundo ele, o projeto é ideal para regiões com pouca extensão de terra ou baixa disponibilidade de água.
Investimento Franqueado: R$ 3,6 mil
Retorno esperado: cerca de 24 meses
Agricultor: R$ 2,8 mil*
(*) pode ser financiado pelo Pronaf/governo federal
linha Direta Tárcio Handel (83) 3243-2621 / http://www.agenciamandalla.org.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário